domingo, abril 02, 2006

Só isso...

E de noite veio o vento. Não era um vento agressivo, frio e desconfortável. Era um vento com personalidade, agarrava-nos com força, envolvia-nos com o seu abraço fresco e sufocante, levava-nos de volta ao Verão, às noites de praia, do tempo do liceu, em que se ficava no paredão até às tantas em conversas leves e soltas.... Este era o vento que trazia a lua cheia, gorda, sumarenta, um vento que abanava a rede vazia.
Fui à varanda e olhei à volta, para as árvores que sussurravam segredos umas às outras, para a igreja que se vê lá no cimo, para a rede que se agitava sozinha.
Hoje apetecia-me dormir nela, e apetecia-me um abraço. Só um abraço.
Que me protegesse do vento, que me adormecesse em silêncio...
Que estivesse ali.
Só isso....
28.09.04

sábado, março 25, 2006

Nocturno

No final da noite o coração bate-me mais forte.
Desvio os olhos das conversas que mantenho comigo mesma, e vislumbro lá fora o cantar dos pássaros que anuncia um novo dia.
É cedo... ou é tarde, e eu nem sabia...
Levanto-me pesadamente, apago as réstias artificiais de luz, e visto-me de descanso.
Nos olhos pesa-me parte do dia e parte da noite, e arrasto os pés pela casa, escolho nos dedos as tábuas que fazem os degraus ranger, e fecho a porta atrás de mim.
Não acendo ainda a luz, gosto de me movimentar às escuras, sabendo que conheço os recantos como a um corpo que toco com suavidade, sempre na expectativa de confirmar que a memória não me traiu, e que a realidade ultrapassa a imaginação.

Através das cortinas coloridas, baratas, começa a entrar um pouco do dia novo, e pelo silêncio, pela paz desta hora em que o mundo é só meu, abro a porta da varanda.
Só então percebo que não vesti ainda o pijama, quando a manhã me cobre, fria, e tu vens por trás e me abraças.
07.04.2005

sexta-feira, março 03, 2006

intimidade

apetecia-me um lugar onde as mão mergulhassem sempre nos contornos do teu riso
apetecia-me um lugar onde pudesse descansar os olhos fechados na sombra dos teus passos seguros
apetecia-me um lugar onde o mar se debatesse na tua voz, e sempre, sempre mergulhasse nele as ondas do meu corpo cheio de nós

apetecia-me um lugar
onde estivesses tu e eu te encontrasse, dentro desta mesma intensidade com que te procuro
15.02.2006

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Passar das horas

Está frio.
No mundo lá fora percebo um mar que navega devagarinho, brilhando aqui e ali ao som da lua.
Devagarinho perco-me também eu nas estrelas, e no céu, e juntos formamos a noite.
Queria ter sono, e não confundir as horas com a tua ausência...

Porque é que o escuro dos meus olhos fechados é a tua cara?
05.03.05

quinta-feira, janeiro 26, 2006

O nome dele

Quando ele lhe foi apresentado, havia duas ou três pessoas no seu universo com o mesmo nome.
Todos temos nomes que, de uma forma ou de outra, soam mais fortes quando pronunciados.
O dele não era um desses nomes.
Quando o ouviu a primeira vez não lhe despertou nenhum sentimento, não soou nenhuma campaínha, não estalaram foguetes no ar...
Apesar disso, aos poucos o nome foi vencendo.
Adquiriu consistência própria, e um sabor espesso e quente sempre que era pronunciado, enrolando-se devagar na língua.
Tinha um som diferente, com as suas consoantes e vogais alternando de forma harmoniosa, quase perfeita, como música a irromper do silêncio e fazendo estremecer as estruturas mais seguras que trazia dentro de si.

A partir daí começou a segui-lo.
(ou seria ele a segui-la a ela?)
Se o via assinado num jornal lia o artigo todo, e se por acaso um cantor assinava como ele, comprava o álbum, se houvesse imagens de outros homens chamados assim, ela recortava-as para as guardar...
O nome deixou de ser nome: era ele.
Como se todos aqueles homens pudessem formar uma massa, fundir-se, misturar-se, e fazer um só...
28.05.05